Cultura & Expressão — Por Que a Sexta-Feira Importa
Às sextas, o Hangar Club abre arte, esporte, jogos e excursões — para que adolescentes descubram formas de expressão que de outro jeito nunca encontrariam.
Todo adolescente merece um lugar onde possa experimentar — e acesso a uma expressão que de outro jeito jamais teria encontrado.
Há um momento que observamos de novo e de novo — e ele tem pouco a ver com a escola.
Muitos jovens que chegam à universidade, e já são os poucos que conseguem, chegam lá com uma dificuldade grande: falta a eles o conhecimento geral que os outros já trazem. Nunca entraram num teatro, nunca viajaram, nunca viram outra cidade além da comunidade de onde vêm. E aí, de repente, sentam ao lado de estudantes de escolas particulares, que já trilharam outros caminhos e puderam construir um conhecimento completamente diferente. Isso gera insegurança. É uma lacuna que nenhuma grade horária, sozinha, consegue fechar.
É justamente por isso que a expressão faz parte do nosso programa desde o início, e não só o reforço escolar. Com arte e esporte, a gente constrói experiências, para que eles também tenham acesso a uma expressão que de outro jeito talvez nunca encontrassem. E percebemos isso o tempo todo: eles amam trabalhos manuais simples, porque ali podem se expressar e experimentar. Em casa muitas vezes falta papel, falta material, e assim ficam escondidos talentos que ninguém jamais imaginaria. A gente quer ser amplo no programa de propósito, para que conheçam as mais diferentes formas de expressão e depois possam escolher, por si mesmos, o que é deles.
O que a sexta-feira significa, na prática
Como a sexta vai ser, a gente não decide por cima da cabeça dos adolescentes. Perguntamos a eles o que querem experimentar ou aprofundar, e então oferecemos exatamente isso. Uma vez por mês nos sentamos para planejar e olhar juntos o que vem a seguir. Alternamos de propósito entre esporte, arte, excursões e jogos, porque em cada uma dessas áreas mora uma forma própria de expressão.
Pelos jogos eles aprendem a estar em comunidade. E não estou falando de ficar grudado na tela, mas de verdadeiros jogos de mesa, que desenvolvem outras habilidades: jogar junto, esperar a sua vez, ganhar e perder com o outro. Nas excursões a gente constrói conhecimento geral e um sentimento de pertencer à cidade e ao próprio bairro. No esporte eles se movimentam e podem extravasar, sentir o corpo, soltar a pressão. E na arte se abre o acesso às mais diversas técnicas e materiais, nos quais podem se experimentar.
O que acontece quando recebem espaço
Quando os adolescentes recebem espaço para criar, eles se aprofundam — e isso vale igualmente para meninos e meninas. Muitos simplesmente nunca tiveram essa chance antes. Não cresceram com material de arte à mão em casa, nem com alguém os incentivando a fazer algo. E então experimentam, vão fundo, se entregam àquilo. Alguns descobrem no caminho: isso não é a minha praia. Mas tentaram. E é exatamente esse o ponto. Tiveram a chance.
O sonho do Hangar Club inteiro
A longo prazo, sonhamos com algo maior. Queremos trabalhar com as mais diversas empresas, onde os adolescentes possam trabalhar. Porque percebemos uma coisa: muitos deles já precisam levar dinheiro para casa ainda adolescentes. Isso a gente não tem como contornar, é uma necessidade real das famílias, do jeito que o sistema impõe. No Brasil, adolescentes podem trabalhar até quatro horas por dia.
Mas não queremos que eles sejam usados apenas como mão de obra barata. Queremos trabalhar com empresas que de fato queiram desenvolvê-los, que tenham um olhar para o fato de que esses jovens estão aprendendo e crescendo. Com essas empresas amigas a gente quer construir relações e, a partir daí, formar um sistema em que trabalhamos de mãos dadas. É um sonho, e dá muito trabalho. Estamos nesse caminho.
Por enquanto, construímos pelo outro lado, pelo sistema escolar. Só quando esse acompanhamento escolar estiver firme e bem de pé é que entra o trabalho com as empresas. O sonho por trás disso: que cada adolescente seja acompanhado de forma integral. Que tenha um equilíbrio através da arte e do esporte, apoio escolar onde lhe falta, e um trabalho que o leve adiante, já que de qualquer forma precisa levar dinheiro para casa. A semana dele vai ser cheia. Mas vai sustentá-lo. Que disso nasça um programa para a semana inteira, e não só um pouco de diversão depois da aula.