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Relacionamentos & Direitos — Por Que a Confiança Vem Antes de Todo Movimento

Como a confiança, o acompanhamento 1:1 com a Livia e o trabalho com as famílias sustentam o quarto pilar de Hangar — e por que o adolescente segue no centro da própria decisão.

Bettina Bossart
Bettina Bossart ·
Atualizado: 19 de junho de 2026 · 5 min de leitura
Um mentor escuta com atenção um adolescente sob luz dourada — presença, confiança, ser visto.

Damos os impulsos. O adolescente decide se mover. E então caminhamos com ele na direção que ele escolhe.

Dizer a um adolescente que a escola é importante soa razoável. Mas muitos passos só acontecem pela confiança, e essa confiança não nasce de um bom conselho. Um adolescente só confia quando vê a sua vida e percebe que você quer mesmo o bem dele — porque tudo ao redor lhe conta uma história diferente.

O dinheiro de uma facção costuma ser o caminho mais fácil para ganhar algo. Às vezes pedem que ele ajude desde cedo e leve dinheiro para casa, então ele passa a entregar comida depois da aula. No fim, chega cansado demais para se concentrar nos estudos. E em casa moram tantas pessoas no mesmo espaço que não sobra um canto tranquilo para estudar.

Quem grita "educação importa" para dentro dessa vida continua sendo só barulho. Mas quem vive essa crença, aparece, faz perguntas de verdade e escuta de verdade, abre uma fresta por onde outra possibilidade pode entrar. É por isso que o relacionamento é o quarto pilar. É a confiança que nos permite encorajar um adolescente e desafiá-lo a dar alguns passos.

E, ainda assim, o adolescente segue no centro da própria decisão. Não podemos decidir por ele. O que fazemos é dar impulsos — estímulos que encorajam, que movem, que talvez abram um novo horizonte. Um impulso vem sempre antes de qualquer movimento. Damos os impulsos, o adolescente decide se mover, e então caminhamos com ele na direção que ele escolheu. É isso que distingue Hangar de uma escola ou de um programa.

O acompanhamento 1:1 com a Livia

Como a estrutura do bairro expõe os adolescentes a perigos reais, queremos estar perto. Para isso, Hangar conta com a Livia, que acompanha cada um deles individualmente. Não se trata de dar lição, mas de saber o que realmente acontece na vida de cada um.

Quando um adolescente mora com a avó e a avó sofre um acidente, de um momento para o outro a única referência some — talvez por um tempo, talvez para sempre. Se estamos perto o bastante, sabemos o que está acontecendo e conseguimos apoiar melhor. São tantos fatores que se mexem todos os dias, e o que vai bem hoje pode não ir amanhã. No meio de tanta incerteza, queremos ser o fator que é certo e seguro. Por isso nos encontramos com regularidade, a cada poucos meses, e olhamos juntos: onde o adolescente está agora, e onde está o objetivo?

Por que trabalhamos com pais e responsáveis

A grande maioria dos adolescentes ainda vive em casa ou anda com seus responsáveis. Por isso fazemos questão de não colocar objetivos por cima dessas pessoas, mas de trabalhar junto com elas. Muitos dependem do sistema que têm em casa, e quando esse sistema não funciona, podemos traçar os objetivos mais bonitos — sozinhos, eles não conseguem alcançá-los.

Um exemplo: um jovem precisa de um remédio, e a mãe decide de um dia para o outro interromper. Nesse caso, o filho não tem como decidir sozinho, tudo passa pela responsável. Se estamos próximos o suficiente da mãe, conseguimos encorajá-la a voltar ao médico, para que o remédio seja ajustado de novo e o filho possa continuar crescendo, sem se prejudicar.

Em casa, os adolescentes muitas vezes enfrentam dificuldades. Estão numa idade que já é desafiadora por si só, e a isso se soma a situação instável. Quando ajudamos os pais a construir pontes com seus adolescentes, em vez de derrubá-las, todo mundo ganha.

O que significa "Direitos" no nome do pilar

Muitos adolescentes nunca resolveram passos administrativos básicos. Faltam números de registro ou de identificação que, no Brasil, já importam desde a infância. Sem eles, muita coisa permanece fechada — não entram em museus, não conseguem usar a oferta cultural e seguem de fora da vida comum da sociedade.

Por isso ajudamos a conseguir esses números. Ou os encaminhamos aos órgãos responsáveis, porque certos trâmites só podem ser decididos ali. Assim colocamos a ajuda em movimento e abrimos portas que de outra forma ficariam fechadas. Isso é trabalho de direitos: não teórico, mas bem concreto. O direito de pertencer à própria cidade.

A parte mais difícil do trabalho de relacionamento

Os adolescentes cresceram em condições muito instáveis, muitas vezes traumáticas. Isso os torna, hoje, pouco constantes: numa semana vêm, na outra não, e estão expostos a muitas influências. É preciso um fôlego muito longo. Eles aparecem, depois somem de novo — e aceitar isso, sem julgar e sem criticar, é o mais difícil.

Quando voltam, nós os recebemos de novo e damos novos impulsos. Torcemos para que mudem a rota de voo, porque para muitos chega o dia em que conseguem. Alguns ainda não conseguem. O desafio é aceitar a inconstância deles sem nunca fechar a porta — impulso após impulso, sem pressão, sem manipulação.

Uma nota honesta para encerrar

Nosso projeto tem apenas seis meses de caminho. É pouco tempo para já enxergar o acompanhamento profundo e seus frutos. Mas eu já conduzi um trabalho parecido na Suíça e, anos depois, quinze, dezoito anos depois, ouvi de adolescentes daquela época o quanto aquilo deu sustentação à infância deles. Lá eu consigo olhar para trás.

Aqui, por enquanto, são pequenos passos e pequenas conquistas — e isso a gente comemora. As grandes transformações não se escrevem em seis meses. Mas a confiança cresce, e é exatamente ali, no relacionamento, que a mudança se torna possível.